Registros

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"Nos agostos de nossas vidas - perdas, ausências, solidões, ressentimentos, lutos - sonhamos os setembros - aparições, encontros, romances, beijos, promessas -, linguagens novas que nos acariciem, que nos façam sonhar, que nos capturem para sempre.


Porque tantos versos de amor? Por que tantas canções de amor? Umas belas e graves, outras até vulgares?


Simplesmente para que, extasiados, contemplemos a adequação inesperada (e esperada) de um objeto ao nosso desejo.


Às vezes, o que parecia ser o amor era apenas quimera. Pouco importa, tentamos novamente; o coração continua e corremos de amor em amor, à procura do Amor. Do seu início, da sua espera, do seu festim, apesar de seu peso quase insuportável, do contentamento descontente que ele nos provoca.


Quando acontece, o amor é como algo que nunca tivesse nos acontecido.


Luzem as estrelas, o sol se move, e o amor, a mais pesada das drogas, permanece incólume; transgressor e sentimental, por isso mesmo obsceno.


Desejamos algo que nos arranque da calçada e prontamente nos arremesse ao mar. Para esse mergulho precisamos do outro. Que ele não nos falte ou rejeite; que ele nos acolha e reconheça para juntos fazermos a passagem dolorosa e única do anonimato ao alumbramento, à identidade somente conferida pelo ato de amar e ser amado.


Assim, sendo eternos no outro, estaremos a salvo da morte e do esquecimento.

Na memória de todos nós o amor lateja como um sonho impreciso, uma mão pousada sobre nossos ombros; algo corpóreo e breve. Coisa feliz."

Neide Archanjo


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